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  • Mariana Cordeiro

Conhecimento e Informação: Discipulado x Educação Institucionalizada

Embora seja um conceito pouco praticado no ocidente, o discipulado consiste em um dos aspectos mais marcantes do Yoga. Tradicionalmente, o Yoga nunca é algo que a pessoa aprende sozinha. Há sempre um mestre e um discípulo.

O sistema iniciático de mestres e discípulos na Índia existe desde o período védico há cerca de 4500 anos a.C. O estudo dos Vedas era um dever sagrado de todos os membros da sociedade pertencentes às castas superiores. O conhecimento era transmitido aos jovens pela palavra falada e tinha que ser memorizado. Ao mestre era confiada a tarefa de guiar o discípulo em seus estudos acerca dos Vedas e zelar pelo seu bem - estar. O discípulo por sua vez, obedecia ao mestre e empenhava-se no estudo e nos serviços domésticos. O relacionamento entre mestre e discípulo é chamado guru-kula ou sistema da “casa do mestre”.

O mestre ou guru é responsável pela iniciação do seu discípulo e somente a partir do momento em que considera o discípulo pronto passa a transmitir-lhe os conhecimentos de sua linhagem. Quando um adepto é aceito por um mestre poderá passar por constantes testes e provações. O objetivo primordial desse tipo de metodologia é atingir e desestruturar a personalidade egóica presente no discípulo. É um caminho espiritual árduo dificilmente trilhado com desenvoltura. É sobretudo um caminho de disciplina, entrega e desapego.

Só de pensar na maneira como tem sido gerida a estrutura educacional no nosso país e na relação que vem sendo construída entre os jovens e o conhecimento, podemos compreender o quanto esse sistema de discipulado parece distante da nossa realidade. Se por um lado o rigor do sistema do guru-kula parece não contemplar demandas dos novos paradigmas pedagógicos contemporâneos, estes por outro, estão longe de ser eficientes em seus desígnios fundamentais. Mas afinal de contas qual é mesmo o principal objetivo das nossas instituições educacionais? Em resumo a nossa lei de diretrizes e bases da educação prevê que a instituição escolar deve orientar o desenvolvimento da capacidade de aprendizagem, tendo em vista a aquisição de conhecimentos e habilidades e a formação de atitudes e valores; fortalecimento dos vínculos de família, dos laços de solidariedade humana e da tolerância recíproca em que se assenta a vida social, bem como, o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.

O que vemos na realidade é que as instituições educacionais são bastante empenhadas na a exposição de conteúdo programático e que o corpo docente de modo geral tem pouca aptidão ou capacitação para promover autonomia intelectual, pensamento crítico e é muitas vezes, carente de valores bem definidos. A base da relação dos jovens com o conhecimento tem forte ligação com o processo individual de inserção no mercado de trabalho e pouco vínculo e comprometimento com um processo de amadurecimento humano. A possibilidade do acumulo de riqueza e ascensão social tem sido o maior incentivo e a base do estímulo da relação dos jovens com o conhecimento. No sistema que preconiza o conhecimento como meio de ascensão social por meio do ingresso em instituições de formação profissional o saber resume-se basicamente na transmissão escrita ou oral de informação. No final de sua formação os jovens têm poucas condições de aplicar o “conhecimento’ transmitido por anos na sua vida prática.

Geralmente quando se diz a uma criança que é necessário que ela freqüente a escola para ser “alguém na vida” dificilmente refere-se aos valores morais e éticos necessários a formação intelectual humana. Na realidade, “ser alguém na vida” refere-se muito mais a ter condições materiais de sobrevivência e ou consumo.

Para a grande maioria das pessoas o materialismo sobrepõe-se a espiritualidade. Dedicamos pouco da nossa energia e nosso tempo as questões espirituais e temos pouco empenho em lapidar nossa personalidade. Aprendemos a enxergar o caminho espiritual como algo abstrato distante de nós. Não estamos acostumados a refletir sobre nossa condição humana e na maior parte de nossa vida negamos a eminência da morte. Não preparamos nossas crianças e jovens para compreender a velhice, a morte, ou mesmo para pensar sobre a natureza do amor... ensinamos que ela tem que ser alguém na vida... mas quem? Nem nós mesmos sabemos...

Sob uma perspectiva espiritualista quando buscamos cada vez mais tornarmo-nos conscientes, agirmos de forma coerente com o princípio divino e universal. Se de alguma forma ainda não criamos o desapego e o comprometimento para submetermo-nos aos critérios de um mestre, temos como praticantes de Yoga um dever espiritual de vivenciar ao máximo os valores propostos nessa tradição milenar. Mais do que simplesmente praticar a disciplina dos asanas torna-se cada vez mais necessária a pratica dos Yamas e Nyamas (condutas morais). É preciso que vivenciemos o Yoga com a nossa família, colocando seus princípios básicos como premissas de toda a nossa vida. Temos que fazer dele a nossa diretriz básica, não apenas no discurso, mas, na ação diária de modo consciente.

Assim como o exemplo é o melhor conselho, a prática é o melhor professor.

Mãos à obra, ainda temos muito que fazer...

Namastê

Mariana Cordeiro

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